Brasil

Rota da Cocaína: o tráfico que passa pelos portos brasileiros

O jordaniano Waleed Issa Khmayis, hoje com 56 anos, já foi um detento do sistema penitenciário cearense. Em julho de 1992, em Fortaleza, ele foi flagrado como membro de uma quadrilha proprietária de uma carga relevante: 592 quilos de cocaína, disfarçados no meio de 13 toneladas de arroz. A droga era trazida da Bolívia e seria levada para a Itália. Detalhe importante: a mercadoria ilícita sairia para a Europa pelo mar.

Condenado a nove anos por tráfico, o jordaniano cumpriu apenas parte da pena no Ceará. Porque depois foi conseguindo transferências para outras unidades prisionais pelo País: Ceará, Goiás, São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará novamente. Nesse tempo, regime semi-aberto, uma fuga, prisão em flagrante com nome falso, progressão para regime aberto e pena cumprida. Concluiu sua condenação assinando presença na 12ª Vara Federal de Fortaleza, poucos anos atrás. Agora, Waleed está prestes a figurar no rol da “difusão vermelha” da Interpol, como é chamada a lista de foragidos procurados pela Polícia Internacional. 

Esta, pelo menos, é a intenção da Polícia Federal brasileira. Waleed tem dois mandados de prisão preventiva em aberto, por seu nome aparecer em uma grande investigação sobre o tráfico de cocaína saindo de portos brasileiros para a Europa. Ele é citado em duas operações recentes da Polícia Federal, a Brabo e a Contentor, ocorridas em setembro e outubro deste ano, iniciadas a partir de apreensões feitas em 2015. Pelo menos 114 pessoas foram presas na Brabo e na Contentor. Waleed é um dos vários ainda foragidos.  

O POVO teve acesso a dados das duas investigações. Segundo o delegado federal Agnaldo Mendonça Alves, da PF de São Paulo, o jordaniano teria sido um colaborador das quadrilhas especializadas em despachar as grandes cargas de cocaína para países europeus. Na lista aparecem Bélgica, Espanha, Inglaterra, Itália e Rússia. Os portos de Santos (SP), Itapoá (SC), Itajaí (SC) e Salvador (BA) aparecem nas rotas levantadas. Mais de 7,6 toneladas de cocaína foram apreendidas entre 2015 e 2017, no Brasil e nestes cinco países, ligadas aos grupos investigados.

Brabo, que batizou uma das operações, é o nome de um porto da Antuérpia, na Bélgica. “Na verdade, não tinha um lugar específico. Eles tinham estrutura para receber a droga em qualquer um dos portos da Europa. Eles definiam na hora”, reforça o delegado. No caso da operação Contentor, centrada a partir de Joinville, várias semelhanças. Do porto catarinense de Itapoá, cidade próxima, segundo a PF, os carregamentos zarpavam rumo ao continente europeu. 

Clã e consórcio  
Segundo Agnaldo Mendonça, Waleed não seria o personagem central das duas investigações, pelo que está hoje levantado. Ele estaria vinculado a sérvios presos na operação Brabo: Bozidar Kapetanovic (“Judô”) e Miroslav Jevtic (“Felipe”). “Ambos teriam vínculo com o clã Saric, da região dos Bálcãs. O vínculo com o jordaniano Waleed seria apenas com o sérvio Miroslav Jevtic”, informou a assessoria da Polícia Federal, por e-mail.  

A península balcânica, com 13 países do sudeste europeu, seria destino da cocaína. Ou pelo menos é rota do crime. Saric é um narcoclã atuante naquele território. Os sérvios Bozidar e Miroslav, conforme o delegado, eram operadores de um esquema semelhante a um consórcio do tráfico, aliados a criminosos sulamericanos.  

“O grupo ao qual ele (Waleed) era ligado tinha duas vocações. 

Faziam contatos no exterior para a droga de terceiros que estavam no Brasil, e faziam a remessa de drogas deles mesmos, pertencente a eles próprios (sérvios). Mandavam droga deles e de outros traficantes”, explicou Mendonça. Membros da facção PCC estão entre os presos na operação Brabo. 

O delegado diz que houve registro (filmagem) de um “contato pessoal” de Waleed com Miroslav. Teria sido com o intuito de traficar? “Sim” – confirmou, por telefone. “Na opinião nossa, que estamos na investigação, ele estava tratando de assuntos ilícitos, por isso pedimos a prisão dele”. Eram os sérvios que chefiavam a logística da remessa no Brasil e contatavam os compradores e destinatários na Europa.

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