Ceará

Conheça a história de mulheres engajadas em combater o machismo

Manhã de quarta-feira, Estádio Presidente Vargas em dia de rodada do Campeonato Cearense, cinco torcedoras e um desejo em comum: equidade de gênero. Hoje, no Dia Internacional da Mulher, o Diário do Nordeste conta a história de mulheres engajadas em combater o machismo dentro e fora das arquibancadas.
Amanda Lima, da Torcida Uniformizada do Fortaleza (Tuf); Karolyne Santos, da Jovem Garra Tricolor (JGT); Lídia Mayara, da Torcida Organizada Cearamor (Toc); Stephany Lopes e Monalysa Acioly, das Sereias Corais; utilizam as arquibancadas para discussão do papel da mulher, conduzindo as demais no enfrentamento cotidiano da defesa de direitos em todas as dimensões sociais, reafirmando o protagonismo feminino em uma construção de resistência.
"Lugar de mulher não é em estádio. Lá é um lugar violento. A família de bem tem de estar em casa assistindo pela televisão", escutava a estudante Lídia Mayara, de 19 anos, quando começou a frequentar as praças esportivas, ainda em 2006.
A torcedora alvinegra afirma que o machismo no futebol é apenas um espelho do que acontece na sociedade. Com isso, as torcidas organizadas femininas surgem como um instrumento de resistência e de uma reafirmação de identidade de luta.
"É quebrar tabus. É enfrentar o preconceito todo dia. A arquibancada é apenas um reflexo da nossa sociedade. Nós estamos aí, mostrando que somos torcida, que somos fortes e que não vamos nos calar", declarou Lídia.
Nesse sentido, Monalysa Acioly, de 44 anos, considera fundamental romper com a visão de dominação masculina e acredita que o respeito mútuo é essencial para o processo de igualdade.
"Estamos aqui para contribuir. Os homens acham que vamos aos estádios em busca de paqueras. Por que não podemos ir para torcer? Por que não podemos ficar felizes vendo nossa torcida cantando pelo time? Precisamos de respeito!", falou a torcedora do Ferroviário.
Ao problematizar o machismo presente nas arquibancadas, outros questionamentos surgem, como, por exemplo, a participação em alguns setores das torcidas organizadas. "As pessoas ainda nos veem como sexo frágil. Há uma restrição em alguns setores. Talvez pela nossa segurança, em relação a ida às caravanas, ou pelo fato apenas por ser mulher", falou Mayara.
Ações
O Coletivo Torcedoras do Leão, que engloba as torcidas organizadas do Fortaleza, foi criado para acompanhar e orientar mulheres que desejam frequentar os estádios na Capital. O movimento realiza ações para a comunidade no entorno das sedes institucionais das organizadas e do clube, englobando sócios-torcedores e torcedores em geral; confraternizações nas principais datas comemorativas do calendário, como o “Pagode das Minas” - evento criado em alusão ao Dia Internacional da Mulher, que acontecerá na praça Ney Rebouças, no próximo domingo (11), à partir das 10h.
“O principal objetivo da organizada é a formação do cidadão. As pessoas têm o estereótipo de que somos violentas. E esses eventos que fazemos nos dá perspectiva de desenvolver ações conjuntas para combater o machismo e ampliar a presença feminina na bancada”, confessou a estudante Amanda Lima, de 25 anos, torcedora do Fortaleza.
No mesmo dia, o Movimento Mulheres Alvinegras realizará um Café da Manhã em homenagem às mulheres. O evento acontece, às 8h, no ginásio do Ceará Sporting Club, localizado na sede do clybe, em Porangabuçu.
Representatividade
“Demorei a entender que tudo estava separado. Eu me surpreendi, quando entrei no futebol, e vi que as mulheres são invisíveis. Por mais que estejam presentes no dia a dia do esporte, ainda são colocadas nos bastidores”, disse a presidenta Maria Vieira, do Uniclinic.
As palavras da primeira mulher a ocupar a presidência de um clube cearense retratam a situação da representatividade feminina no futebol local.
De acordo com o levantamento feito pelo Diário do Nordeste, nos três principais clubes do Estado - Ceará, Ferroviário* e Fortaleza - , a quantidade de mulheres ocupando cargos na gestão (presidência, diretoria e conselho deliberativo) é de apenas 30, num total de 625 colaboradores, cerca de 5%. Se levarmos em conta os demais times da Série A do Estado, há um acréscimo de apenas uma.
Maria ressalta que a resistência passa, em primeiro lugar, pelo enfrentamento à questão de capacidade. “Infelizmente, a gente é apontada pelas pessoas que vivem do futebol por ser mulher. Minha capacidade foi questionada, quando assumi o clube. As pessoas tinham dúvidas sobre o meu trabalho, se eu entendia ou não de futebol”, relatou.
Ao compreender essas questões, Maria Vieira afirma que o Dia Internacional da Mulher é uma data de luta e resistência. “O 8 de março é uma data que representa reflexão. A gente chega nestes cargos e têm de se manter. A luta é diária, árdua, em todos os níveis de sociabilidade. É resistir. É algo que vai da questão do corpo, do assédio no trabalho, da violência doméstica, dos baixos salários, da luta pela igualdade de gênero”, declarou. (Por Ideídes Guedes)
*O Ferroviário, até o fechamento da reportagem, não divulgou a quantidade geral de diretores e conselheiros.
Frases
"Os homens acham que vamos aos estádios em busca de paqueras. Por que não podemos ir para torcer? Precisamos de respeito!"
Monalysa Acioly
Torcedora do Ferroviário
"É enfrentar o preconceito todo dia. A arquibancada é apenas um reflexo da nossa sociedade. Nós estamos aí, mostrando que somos torcida, que somos fortes e que não vamos nos calar"
Lídia Mayara
Torcedora do Ceará

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