Sobral

Produção de peixes caiu nos últimos anos em Sobral

A baixa no volume do Açude, pela redução das chuvas, tem comprometido projetos de piscicultura
Após quase duas horas de tentativa, deslizando o pequeno barco de um lado a outro do Açude Ayres de Sousa, o pescador Ângelo Ribeiro, 33, recolhe todo o material utilizado para a captura de peixes, e decide voltar para casa com o cesto praticamente vazio. Apesar do tempo nublado e das pancadas de chuva das últimas semanas, os dias para pescaria não têm sido os mesmos de anos atrás, quando a fartura enchia de certeza a vida dos pescadores do distrito de Jaibaras, neste Município do Norte do Estado.
Hoje, com a falta do cará tilápia, espécie antes abundante no Açude, e bastante consumida na região, o jeito é buscar outro tipo de atividade. "Minha mulher trabalha como doméstica e eu faço pequenos bicos como pedreiro; assim consigo manter as contas em dia. Faz tempo que o povo deixou de pescar por aqui. Eu fico por teimosia, mesmo, porque foi isso que aprendi com meu pai", conta.
Queda
Atualmente operando com 46,47% de sua capacidade, o Açude Ayres de Sousa, em nada lembra sua importância no passado para o desenvolvimento do projeto de piscicultura local, com apoio de tanques-redes, no ano 2000. As atividades eram realizadas com sucesso por 19 comunidades que, juntas, chegavam a produzir cerca de 150 toneladas de cará tilápia por mês. Hoje, o número de comunidades caiu para três, e a produção do pescado bate a casa das 10 toneladas para suprir o mercado local, mensalmente.
Das três associações que gerenciavam a pesca dentro do projeto, apenas uma se mantém em funcionamento, assim como o complemento da produção local realizado por dois produtores particulares. Além das sucessivas secas, que mudaram para pior a situação do Açude, outras dificuldades se fizeram presentes no que se refere ao colapso do projeto no Município.
Dificuldades
Em 2005, os pescadores enfrentaram um grave problema nos tanques-redes distribuídos no espelho d'água do Jaibaras. Durante início da quadra chuvosa daquele ano, uma inversão térmica, comum, nos períodos de chuva, liberou gases tóxicos em demasia, o que causou a morte, por asfixia, de 100 toneladas de peixes. Esse prejuízo se somou à sequência de precipitações irregulares que se apresentaram nos anos seguintes, baixando muito o nível das águas.
Em 2011, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) proibiu o uso dos criatórios em gaiolas, obrigando as comunidades a retirarem as mesmas do leito do açude. Com o tempo, a medida prejudicou a atividade do Caminhão do Peixe, doação do Ministério da Pesca, que abastecia o mercado local, levando o produto diretamente do Açude às mãos dos consumidores, ao valor de R$ 8, o quilo.
Procura
No Mercado Central de Sobral, por ainda ser um peixe de valor mais acessível, o cará tilápia continua sendo bastante procurado; mas, por conta da crise na produção local, o peixe consumido na cidade tem vindo de Camocim, no Litoral Oeste cearense, ou de criatórios pernambucanos. "Essa foi a forma encontrada para manter venda, porque é um peixe barato e gostoso", afirma Manoel Dias, peixeiro do Mercado, que tem cobrado, em média, de R$ 12 a R$ 15 por esse tipo de pescado.
"Eu ainda acho um bom preço, se comparado a outros peixes. Mas, na época em que era vendido nos bairros, no Caminhão do Peixe, era bem melhor", lembra a dona de casa Maria de Lourdes Serra, enquanto embalava um quilo e meio da tilápia para o almoço da família de quatro pessoas.
Retomada
"Com o declínio da produção e a determinação do Ministério Público do Estado do Ceará, o projeto de produção local de cará tilápia foi comprometido quase por completo. O caminhão era voltado àquelas comunidades mais carentes de Sobral, que tinham acesso, semanalmente, a um produto mais acessível. Essa atividade foi encerrada ainda no ano passado", lamenta Aquiles Moreira de Moraes, engenheiro de pesca da Secretaria de Agricultura de Sobral. Ao mesmo tempo, ele revela o novo momento que o Município vive de retomada dessa produção.
"Estamos entrando com o novo projeto tecnológico de cultivo de tilápia em bioflocos, o que diminui o volume de água necessário ao cultivo, além da utilização de bactérias essenciais para estabilizar os parâmetros de qualidade da água, com ajuda de gerador", explica.
O projeto piloto está sendo implantado na Comunidade de São Domingos, às margens do Jaibaras, com aproveitamento de um tanque que já existia no local. "Estamos em fase de licitação para a compra do gerador e de outros equipamentos", detalhou o engenheiro.

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